O Brasil na Copa – O desempenho esportivo e o treinamento mental

Pedro Ivan Rogedo é palestrante, engenheiro pela UFG, foi professor da UnB por 20 anos, ávido praticante de vários esportes, e autor do livro JOGUE O SEU MELHOR JOGO – A Programação Neurolinguística e a Auto-Hipnose no Desenvolvimento de Habilidades e no Treinamento Mental do Atleta.

O artigo abaixo relaciona-se ao seu livro. Aproveite a leitura.


O BRASIL NA COPA – O DESEMPENHO ESPORTIVO E O TREINAMENTO MENTAL 

O Chororô dos Jogadores Prejudicou o Desempenho?

    Há dias em que tudo dá certo. Nos mais variados esportes o atleta sente-se leve, rápido e poderoso. No futebol, o chute sai forte e certeiro e o drible é inesperado e desconcertante; no basquete o arremesso da zona morta entra de xuá, e após uma rápida infiltração são mais dois pontos a comemorar; no vôlei o passe vai sempre na mão da levantadora e mesmo com um bloqueio pesado o ataque resulta em ponto; no tênis inúmeros saques entram e o voleio é executado com perfeição; na natação o salto é perfeitamente sincronizado com o tiro e a virada é perfeita. As decisões tomadas no calor da competição são sempre as mais acertadas.

             Porém, há dias em que tudo parece dar errado, em que mesmo os grandes atletas atuam mal. Após uma série de ótimas atuações, na competição seguinte nada parece funcionar.  Uma simples matada de bola torna-se difícil, quando não bate na canela; o lance livre bate na cabeça do aro, chora e não entra; aquela cortada que tinha tudo para ser ponto vai para fora, e no saque, as duplas faltas são constantes; o tiro e o salto na água não são simultâneos, e a virada dos 50m não é perfeita. As decisões tomadas no calor da competição, em sua maioria, não foram as melhores.

Se as condições físicas e técnicas são boas, o apoio da torcida é incentivador, em casa está tudo normal e os salários estão em dia, o adversário não é melhor do que o do jogo anterior, por que isso ocorre? Como se explica uma atuação apenas regular, ou mesmo medíocre, sucedendo uma ótima atuação, sem motivo aparente? Trata-se do mesmo atleta e ele certamente não desaprendeu a jogar. E quando isto acontece durante uma partida ou competição, a pressão, a cobrança sobre si mesmo, a do treinador,  da torcida e da mídia ficam maiores, e a tendência é piorar cada vez mais. Esses dias de pouca inspiração e de baixo desempenho acontecem até mesmo com grandes craques.

                                           Pelé disse certa vez em uma entrevista: “- Algumas vezes sinto que não estou jogando bem. Nesses dias corro e luto mais do        que nunca. Por isso a torcida sempre me perdoa”.

 

O Estado Neurofisiológico

    A ovação da torcida quando a equipe entra em campo no início de uma partida, ou uma palavra de confiança do técnico no vestiário antes do jogo, pode causar uma reação positiva e fortalecedora no atleta e contribuir para um bom desempenho ou não ter nenhuma consequência.

Outras vezes, uma determinada marcação considerada equivocada do árbitro pode não provocar nenhuma reação ou desencadear uma cólera que poderá perturbar todo o desempenho e mesmo uma expulsão de campo. Uma palavra de um companheiro como: “- Vamos jogar com mais garra!”, pode ter como resultado uma maior dedicação e comprometimento, ou resultar em uma resposta como: “- Jogue a sua bolinha e deixa eu jogar a minha”, ou outra ainda muito mais agressiva. Uma bola de tênis bem devolvida que roçou a linha, mas que o árbitro marcou fora, pode não causar nenhuma reação, ou uma reação temperamental, que pode até mesmo tirar a concentração e, em consequência, o atleta do jogo.

    Reações inesperadas e ambíguas como essas ocorrem o tempo todo nos mais diversos esportes e deve-se ao estado neurofisiológico e ao diálogo interno em que o atleta se encontra naquele momento.

    O que acontece no esporte, dias bons e dias ruins, acontece também em outras situações da vida cotidiana. Quantas vezes, impensadamente, dizemos algo agressivo ou injusto a uma pessoa que amamos e depois nos arrependemos? Outras vezes, tomamos uma determinada atitude e, mais tarde, percebemos que foi errada e se tivéssemos uma nova oportunidade, faríamos diferente. Em casos alguns casos extremos, perante uma determinada situação, temos uma reação temperamental e despropositada e, depois, nos envergonhamos dela. Uma situação inusitada de perigo, a que uma pessoa conhecida ou desconhecida, repentinamente, está submetida, pode resultar em nenhuma atitude  ou em um gesto heroico. Um ente querido, como um filho que, em certo momento dá uma resposta malcriada à sua mãe,  recebe de volta uma palavra educativa e carinhosa, ou um grito e uma punição.

    Denomina-se estado neurofisiológico o estado interno (como nos sentimos) resultante do funcionamento da mente em conexão com a bio-físio-química das células, tecidos e órgãos do corpo e o diálogo interno que é aquela voz que estabelece uma comunicação conosco mesmo, em nossa mente, todo o tempo.

    Há estados neurofisiológicos que nos habilitam a dispor de força, confiança, amor, energia, alegria, grande poder pessoal e outros que são enfraquecedores, paralisantes e causam depressão, ansiedade, medo, sensação de fadiga, tristeza e frustração, com falta de força e poder pessoal.

    A causa da diversidade de reações e comportamentos, muitas vezes ambíguos, é função dos diversos estados neurofisiológicos possíveis, e que podem resultar em ações e atitudes que causam satisfação e orgulho, ou mesmo descontentamento, tristeza e arrependimento. Portanto, cada diferente estado neurofisiológico que ocorre diante de um estímulo externo conduz a uma determinada interpretação, forma uma nova realidade e um novo diálogo interno que resultam em diferentes comportamentos e atitudes.

    Há estados que enfraquecem, diminuem, deprimem, tiram a confiança e parte do poder pessoal, resultando em um desempenho muito abaixo do que seria possível.

     ” Se você, atleta, pela sua postura e expressão facial demonstrar dúvida ou fraqueza, suas adversárias serão as primeiras a reconhecê-las, e isso já conta vantagem para elas”. (Ernesto Hernandez, ex-técnico da Seleção cubana de ginástica olímpica).

Outros estados mentais propiciam o melhor desempenho esportivo, de acordo com as demais condições físicas, técnicas e talento.

   Um estado neurofisiológico que conduza a um estado mental de força, aliado a uma forte condição física, a um bom preparo técnico e a um esquema tático que valorize as qualidades individuais do atleta e do grupo tratando-se de um esporte coletivo, estabelecem as condições que se pode chamar de Estado Ótimo de Competição – ou de Combate. Estar neste estado mental é essencial para o atleta ter uma boa atuação em qualquer esporte e fazer a diferença.

    O importante não é saber o quanto você é capaz de bater ou de apanhar sem cair. O importante é saber o quanto você é capaz de bater enquanto está apanhando. (Rocky Balboa no filme Rocky 5)

É possível mudar e controlar o estado neurofisiológico

Ao longo de sua história, o Homem intuitivamente desenvolveu várias práticas e atitudes para mudar o seu estado neurofisiológico. As danças rituais, as bebidas alcoólicas, desenvolvidas por quase todas as civilizações espalhadas pelo mundo, a música, o ato sexual em alguns casos, às vezes um bom banho quente, o excesso de comida ou chocolate, a música, as compras compulsivas e desnecessárias e, mais recentemente, as drogas químicas legais como analgésicos, estimulantes e antidepressivos ou ilegais como a maconha, cocaína, crack e anfetaminas, que tanto mal causam à saúde,  são práticas intuitivas que visam mudar o estado.

Uma boa notícia: Você pode, conscientemente, mudar seu estado neurofisiológico. Sair de um estado de fraqueza para um estado de excelência, sair de um estado em que você se sente inseguro e sem poder, para um outro de euforia, de força e de confiança. Uma das atitudes que ajuda é a mudança de postura, tal como se vê abaixo nos quadrinhos dos Peanuts.

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